4 de julho de 2011

Decepção

- Posso lhe dizer uma coisa?
- Pois diga.
- Você nunca irá me decepcionar.
Silêncio.
- Ouviu o que eu disse?
- Ouvi sim.
- Por que o silêncio?
- Permaneci calada para não te decepcionar pela primeira vez.
- Não compreendo.
- Então te explicarei. Eu simplesmente não entendo como você pode afirmar isso. Quero dizer, sempre decepciono todos ao meu redor. Nunca alcanço as expectativas alheias... nem mesmo as minhas. Decepciono até mesmo a mim, essa é a verdade.
- Não, não. Você está errada.
- Em que ponto estou errada?
- Reforço o que disse no início: você nunca me decepcionou e nunca me decepcionará.
- Pois acabo de lhe dizer o contrário!
- Você está se referindo às demais pessoas, não a mim.
- E qual seria a diferença?
Silêncio.
- Vamos, me diga! Por que eu não sou uma decepção apenas para você?
- Bom, talvez eu esteja ligeiramente errado.
- Eu disse! Pelo menos nisso eu acerto. Sei o fracasso e a decepção que sou. Sei bem disso.
- Não, você não me entendeu.
Silêncio.
- Talvez eu esteja errado em achar que sou a única pessoa que não te vê como uma decepção.
- Não, nesse ponto você está certo sim.
- Acho que você ainda não está me entendendo. As pessoas se decepcionam quando esperam algo das outras, quando colocam muitas expectativas em alguém. A decepção acontece quando esse alguém não supera essas expectativas. Ou melhor, até mesmo quando esse alguém não corresponde, minimamente, às expectativas. Entendeu?
- Sim, eu sei bem o significado de decepção.
Risos constrangidos.
- Mas você parece não conhecer tão bem o seu significado.
- Meu significado?
- Sabe qual é o seu significado?
Silêncio.
- Você é insignificante.
Silêncio.
- E sabe por que você não é uma decepção?
Silêncio.
- Porque ninguém espera nada de você.

19 de abril de 2011

Para quê tanta vida?


  Venho tentando há algumas vidas, mas tem sido inútil – não consigo me ajustar à sociedade. Acho que não nasci no corpo que deveria. Não me encaixo nesse ser humano que me foi imposto. Na verdade, acredito que meu ser não satisfaça a nenhum molde. Não suporto padrões, convenções ou regras. Sou uma alma livre, que não pertence a nenhum grupo. Nenhum corpo me abrigaria adequadamente. Ora, eu não nasci para o abrigo, muito menos para o adequado.
  Esse anseio pela liberdade pode parecer uma utopia clichê, mas eu busco por algo muito além. Não consigo encarar a realidade e vivo em meu mundo paralelo. Alguns chamam isso de imaturidade, mas creio não ser tão patética assim. A verdade é que eu não consigo enxergar sentido em nada. Não tenho motivações para ouvir o que me dizem, para agir como age a maioria – todos esses corpos produzidos em série – ou para atender às expectativas alheias.
  Meu espírito livre vaga sonhando e fugindo da podridão em que o meu corpo inerte, inútil e morto se encontra. Meu ser é um mero reflexo da imundice daquilo que a humanidade se tornou. O que me difere dos outros é a minha transparência – afinal, quem quer ser um lixo, quando todos te desafiam a provar o contrário? Eu não temo em afirmar que somos todos uns lixos. Podres.
  A morte é a origem de inúmeras perguntas, mas, ao mesmo tempo, é a nossa única resposta. Para quê essa existência vã? Para quê tantos sofrimentos, tantos desgastes, tantas desilusões, se, no fim, seremos todos comidos por animais, tão nojentos e desprezíveis quanto nós, debaixo da terra? Para quê tanta vida?
  Quando morrermos, apodreceremos de fato. Mas essa será apenas a representação óbvia e concreta do que sempre fomos. Quem pensa que faz alguma diferença para o mundo está errado. As pessoas são substituíveis e a sociedade nunca sentirá a falta de ninguém. Todos seguem o que lhes é imposto para se afirmarem enquanto indivíduos vivos, porque, depois da morte, a verdadeira face de cada um será exposta sem a menor sutileza. Sem a mínima pena.
  Eu queria ser capaz de me iludir, de não perceber que sou um peso morto no mundo. Queria conseguir ignorar o fato de que existo e respiro, mas não vivo. E, se não vivo, é porque para isso não vejo motivos, não tenho perspectivas. Ao mesmo tempo, porém, ainda me flagelo por ser tão errada, tão estragada. Não queria ser eu aquela a exibir descaradamente a falha humana. Mas eu estou condenada a isso, porque sou densa – pessoas densas têm dessas coisas, esses frequentes problemas e angústias existenciais. São elas as que mais sofrem consumidas por essas depressões eventuais, e recorrem a métodos variados de escapismo.
  Quero fugir daqui, voltar para o meu mundo paralelo e para lá teletransportar não só minha mente, mas também o meu corpo. Estou cansada disso tudo. Tudo mesmo.  
  Onde fica a saída de emergência? Essa vida mais parece uma prisão. Nascer foi a coisa mais frustrantes que eu já fiz.

7 de fevereiro de 2011

Libertação

  Ela sempre quis saber o sentido daquilo tudo. Por que as coisas tinham que ser tão complicadas? Por que as pessoas não tentavam simplificá-las? Afinal, ela sempre teve muito claro em sua mente que, por mais que não ousasse encarar esse fato de frente, todos iriam morrer. Mais dia, menos dia, a hora de qualquer pessoa chegaria. Então, por que não viver mais rápido, evitar problemas e frustrações, aproveitar mais a vida? Por que as pessoas não valorizavam mais o ‘estar vivo’?
  Ela queria ser livre. Mas a liberdade que ela almejava ia muito além daquela desejada pela maioria das pessoas. Ela queria se libertar de tudo aquilo que fosse desagradável ou incômodo. Não queria perder tempo com nada que pudesse entristecê-la ou irritá-la. Ela evitava qualquer tipo de briga e não se deixava envolver demais com nenhuma situação. Era assim que ela gostava de viver. O restante do mundo que se explodisse.
  Ele nunca se importou com nada nem ninguém. Vivia sua vida mais ou menos, com um emprego mais ou menos, com relações mais ou menos. Estava sempre sob efeito de álcool e drogas, mas não via nenhum problema nisso. Aliás, a solução de sua vida estava ali, já que era o que dava a ele a sensação de liberdade.
  Ele nunca foi daqueles que pensam demais. Sempre evitou qualquer tipo de desgaste físico ou mental. Por que alguém gastaria a vida assim? O que ele queria era viver de verdade. Ou pelo menos no conceito que ele tinha de ‘viver’. O resto que se fodesse.
  Ele era perfeito para ela. Quando se conheceram, ela pensou que havia encontrado sua verdadeira alma gêmea, afinal, eles eram tão parecidos um com o outro. Eles se entendiam completamente. Tudo parecia muito certo. Mas ela guardava o ‘eu te amo’ para si mesma, e só. Falar uma frase dessas poderia arruinar a relação, mesmo que nem mesmo ela soubesse que tipo de relação era aquela. Além de tudo, amar não estava em seus planos e ia totalmente contra o ideal de vida de ambos.
  O tempo passou e já não existia mais ‘ela e ele’. Eles não estavam mais em sintonia. Enquanto ela pensava que eles diziam ‘foda-se’, juntos, para o mundo, ele dizia ‘foda-se’ para ela. Não dizia em palavras, porque não se importava o suficiente nem mesmo para deixá-la saber. Ela vivia iludida, e ele apenas vivia, como sempre fez.
  Era falsa a ideia de que ele estava apaixonado por ela, mas é irreal acreditar que ele nunca se deixara envolver, ao menos um pouco, com a suposta relação. Ele gostava daquela garota, mas descobriu nela algo precioso demais, raro demais. Ela era boa demais para ele suportar. E foi aí, ao sentir o peso que um sentimento poderia jogar nas suas costas, que ele resolveu continuar a vida que até então prosseguia. Sem aviso prévio ou alerta algum, ele sumiu da vida dela. E a vida sumiu dela.
  Ela descobriu que era impossível fugir do sofrimento, e seu conceito de vida começou a escapar do real. Isso aconteceu do modo mais cruel que ela conseguia imaginar. Veio acompanhado do sentimento de rejeição, da tristeza e da raiva. Raiva não só dele, mas também de si própria. Como ela deixou aquilo tudo acontecer? Ela que sempre quis ser livre, como deixou que se envolvesse tanto? Ela deveria ter fugido antes que fosse tarde demais, assim como ele fez. Mas ele o fez, porque pôde. Ela nunca pôde, porque sempre fora tarde demais.
  Perto dele, ela encontrava um lugar no qual queria ficar. Era com ele que ela se sentia segura, confortável, maravilhosamente bem. Os melhores momentos por ela vividos foram na companhia dele. Ela o amou e, se pudesse escolher, não haveria fugido desse sentimento que ao mesmo tempo a prendia e a libertava. Porém, ele não se permitiu amar e fugiu. Mas ela o guardou com carinho, em suas recordações. Ele também a guardou com carinho - ela foi o mais incrível desperdício de sua vida.

9 de novembro de 2010

Sinceramente, não sei mais o que me levou a continuar este blog. A ideia de que, talvez, eu pudesse ter algum talento, ao menos para escrever, deve ter passado por minha cabeça em algum momento. Bom, sinto que eu estava errada. De qualquer forma, ainda não sei o que farei. Pode ser que eu venha a postar aqui novamente, mas não tenho me sentido muito motivada nos últimos tempos, o que é o meu normal. Não sei o motivo das explicações, já que ninguém lê mesmo, rs.
Até um dia. [?]

28 de outubro de 2010

O Garoto e a Chuva (preguiça de escolher um título melhor, rs)

Uma chuva fina caía lá fora – o garoto a observava através do vidro da janela. Ele sempre fazia isso. Nunca saía de casa, mas, sempre que chovia, se postava diante da janela, sozinho, e achava mágico esse momento. Para ele, não havia nada mais lindo que a imagem da chuva caindo. A cena o tocava profundamente e fazia com que ele, completamente imóvel, passasse horas e horas, apenas a observá-la. Por que faria qualquer outra coisa? Aquilo era tudo que ele precisava.

O suave som da chuva caindo, tocando ruas, casas, árvores e calçadas, era como música para os ouvidos do garoto. Isso o acalmava e, eventualmente, fazia com que ele fechasse os olhos, apenas para ouvir com mais atenção. Porém, não permanecia assim por muitos segundos e logo os abria novamente. Como seria capaz de ignorar a cena que se passava lá fora? Ao mesmo tempo que a melodia da chuva – sim, era, definitivamente, uma bela melodia - despertava nele o desejo de apreciá-la individualmente, ela também o levava a ceder à curiosidade de assistir às gotas d’água sendo derramadas. Elas pareciam dançar para ele. Elas acompanhavam a melodia com movimentos de extrema naturalidade, mas num compasso primoroso. A chuva se exibia e seduzia o garoto a assisti-la e ouvi-la. Era irresistível. A sensação era inigualável. Visão e audição pareciam formar um par perfeito, e um sentido se impunha como essencial ao outro.

A chuva caía de forma cada vez mais intensa e a satisfação do garoto crescia proporcionalmente. Ele se sentia como se estivesse assistindo a um filme, aguardando, ansiosamente, o momento em que ocorreriam os trovões e relâmpagos. Por enquanto, era como se o filme estivesse em seu início - as gotas o protagonizavam e os trovões e relâmpagos apareceriam como antagonistas. A crescente intensidade da chuva poderia representar as complicações ao longo da suposta trama. Dessa forma, o garoto se perdia em intermináveis divagações, afinal, o fenômeno, ao qual ele tanto assistia, era a arte na sua forma mais pura e primária. Identificava ali a música, a dança, o teatro. Talvez ele estivesse tão alheio ao restante do mundo que esses pensamentos fossem besteiras, loucuras. Talvez fizessem algum sentido.

O garoto se manteve ali, parado, durante horas. A chuva já não se intensificava mais. O seu som já não transmitia a mesma sensação de conforto. O céu escurecia, trazendo a noite, tornando as gotas invisíveis. Nem mesmo relâmpagos apareceram. Para onde fora toda a arte do momento? Como isso pôde acontecer? O céu, agora, o privava de assisti-la. A melodia se fora. Era como se sua visão e sua audição tivessem perdido a validade.

Perguntas não paravam de surgir na mente do garoto. Por que ele não podia ter o direito de aproveitar a chuva em paz? Ela parecia o trair. Será que alguém era capaz de adorá-la tanto quanto o menino o fazia? A chuva tinha que ser dele, e só. Dele que sempre a observara e escutara à sua melodia, que dedicara seu tempo a ela em todos os dias nos quais ela surgira. O que ele faria agora, sem ela?

O garoto nunca havia tocado a água da chuva. Ele nunca tivera coragem para tanto. Mas e agora que nada lhe restava? Qual seria a sensação de senti-la molhando sua pele, seus cabelos, suas roupas? Ah, mas ele não se atreveria a sair da casa. Ele não tinha essa permissão. Além de tudo, o que poderia acontecer, caso ele se entregasse de vez à chuva? Mas... por que não se arriscar? Sim, ele se arriscaria. Ele sempre morrera de vontade de sentir a chuva, e o faria naquele momento.

Um relâmpago, finalmente, iluminou o céu, e o garoto viu isso como um sinal para seguir em frente na sua decisão de ir até o lado de fora da casa. E assim foi – ele correu até a porta de saída, abriu-a vagarosamente e permaneceu ali parado por um instante, olhando a chuva e juntando coragem. Que tipo de pessoa precisa de coragem, para isso? Quem nunca havia se molhado com a água da chuva? Aquele garoto, porém, sempre fugira disso. Passou sua vida inteira a observar a chuva, sem nunca ousar ir até ela. Ele sempre tivera a impressão de que ela o chamava, mas nunca atendeu aos chamados. Ele estava bem daquele jeito. A chuva o agradava daquele jeito. Mas agora ela o obrigava a fazer sua vontade. Ela o chamava de egoísta. Ou, talvez, simplesmente queria se exibir mais um pouco e mostrar outro de seus ‘poderes’.

O garoto suspirou e, sem pensar em mais nada, atravessou a porta, correu e parou no meio da rua. A sensação de sentir a água da chuva molhando seu corpo era boa. Ele se sentiu livre. A chuva começou a se intensificar vagarosamente – ela também queria se sentir livre. O garoto começou a andar, com os braços abertos, os olhos fechados. Ele não precisaria mais da visão. Nem mesmo da audição. Não havia mais necessidade, agora que ele podia sentir a chuva. Ela, por sua vez, queria forçá-lo a ouvi-la – se intensificou mais e mais, e trovões já podiam ser escutados.

Aquele garoto já exibia um profundo prazer, esbanjando um largo sorriso no rosto. Corria pela rua, pulava nas poças d’água, espalhava água pelo corpo. E não se cansava. Suas roupas estavam encharcadas, mas ele já não se importava. Na verdade, ele queria muito mais e, quanto mais chuva ele desejava, mais chuva caía. Suas gotas agora eram grossas e atingiam com força a pele do garoto. Os relâmpagos e trovões não cessavam, os últimos manifestando-se cada vez mais alto. A chuva parecia querer dizer alguma coisa.

A situação estava incontrolável. O garoto parecia cada vez mais insanamente feliz. Essa era a melhor sensação que ele já tivera – e ele não parava de repetir isso para si mesmo. A água fria dava-lhe a impressão de estar sentindo, de fato, a essência da vida. Ele se sentia pronto para viver, dali para frente. Finalmente se sentia como se estivesse vivendo plenamente.

Os relâmpagos se tornavam cada vez mais frequentes, e o garoto corria feliz, sentindo como se aqueles clarões proporcionassem maior beleza à cena. Ali estava a arte que ele sentira falta. A cada novo trovão, ele deixava escapar um igualmente novo riso. Até que, finalmente, houve o maior clarão até então, o momento de maior prazer, quando a vida gritava de dentro do corpo do garoto. Um trovão extremamente alto anunciava o acontecimento - um raio atingiu a cabeça do jovem inocente. A chuva se vingara. Ele morreu.